O que aprendemos com 2013

É o último dia do ano. Não tinha muita certeza se faria um texto sobre 2013 ou não, mas visto que eu tenho muito tempo sobrando e esse ano foi, para dizer o mínimo, “de tirar o fôlego”, acredito que o ano que se passou merece pelo menos um lembrete aqui no Daora. Afinal, nunca houve nada como 2013 e eu fico feliz de pensar que eu fiz parte de um período que deixou sua marca na História. Não vim aqui fazer retrospectiva porque eu acho que a Globo e todos os jornais do mundo já fizeram esse serviço para nós.

2013 entrou para a História da humanidade porque foi um ano de revolta. As ruas do mundo inteiro foram tomadas pela indignação e pela insatisfação com as estruturas vigentes. Engana-se aquele que crê que essas manifestações foram absolutamente aleatórias e desconexas. Se prestarmos atenção, a fúria do povo com seus governos pareceu dar-se de uma forma quase que coordenada em vários países (e algumas de fato, o foram) e isso, queiramos ou não, quer dizer alguma coisa. Quer dizer que estamos em um processo de mudança que apenas começou no ano que em breve se encerrará. O povo se pintou de rua e a rua se pintou de povo. As pessoas, pouco a pouco, foram percebendo que nossas crenças não são tão inquestionáveis e inabaláveis como nos fizeram acreditar a vida toda. Dogmas estão sendo quebrados, tradições estão sendo revistas e todos os valores que produziram o mundo que a gente tem agora estão começando a ruir. Os movimentos sociais ganharam mais força do que nunca, a geração que questiona o capitalismo voraz e insensível resolveu mostrar o rosto (alguns mantém o rosto coberto, mas isso é assunto para… outro ano), um novo pensamento político questionador saiu de trás das telas dos computadores e resolveu gritar no ouvido de quem sempre nos ignorou. E isso é só o início. O machismo, a homofobia, o racismo, a intolerância e o fanatismo religiosos e o pensamento mercadológico que hoje assolam o mundo serão combatidos, serão postos à prova, pois é um planeta livre desses males que nós queremos ver nascer em 2014.

Que a morte de Mandela não seja esquecida e diminuída por uma história mal contada de sua vida. Que a luta desse grande ser humano seja lembrada como de fato foi: com muito sangue, suor e lágrimas. As lutas não foram fáceis, até hoje não são e é isso que todos que ainda não entenderam precisam entender: não se faz uma renovação de valores na Terra se a gente não mudar a forma de pensar e de agir. Como diria meu artista predileto, Gabriel o pensador: “a gente muda o mundo na mudança da mente”. E ele está certo. O desafio de 2014 é fazer essa ideia chegar ao ouvido daquelas que por séculos foram tratadas como cidadãs de segunda classe. Daquelas que foram relegadas às favelas e à miséria, daquelas que hoje são obrigadas a alisar os cabelos, porque tem o “cabelo ruim”. Daquelas que são obrigadas a abaixar a cabeça para os maridos e viver como subalternas de um sistema que as colocou como inferior. Daqueles que têm sua orientação sexual julgada pelas leis da Igreja e pelas leis dos homens, e morrem todos os dias por não poderem ser aquilo que são e amarem de uma forma que nem todos conseguem compreender.

A ideia de revolução e de luta precisa ecoar nas mentes de quem mais sofre com a falta de uma mudança. E é isso que 2013 nos lega, por fim. A necessidade de mudar, de quebrar os paradigmas e de fazer mais e mais pessoas indignarem-se e ir às ruas brigar por algo que, vejam só, nem precisaríamos estar brigando: uma vida plenamente digna e com respeito à diversidade.

Que venha 2014, com todas as mudanças e toda a raiva que puder trazer, para que 2013 não seja só um ano maluco e conturbado, mas sim o início de um tempo em que ter coragem para lutar vai ser a marca de uma geração. E é essa geração que vai olhar para os livros de História e contar orgulhosa para os filhos que subiu no Congresso Nacional ou que botou fogo nos ônibus (tá, isso foi sacanagem).

Enfim, queridas e queridos, tenham um fim de ano lindo e cheio de felicidade. Que a Força esteja sempre com vocês.

beijos, do Lipe.

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Se apanhar na escola, apanha em casa quando chegar

Quero começar pedindo desculpas a quem me lê por esse longo hiato entre meu último texto e o que você vê agora. Além das tarefas diárias e dos compromissos sociais, sofri de um terrível bloqueio inspirativo e não pensei em nada para postar aqui. (mentira, até pensei, mas nada me parecia interessante ou bom o suficiente, entende?)

De qualquer forma espero sinceramente que aceitem minhas desculpas e procurem compreender as crises de loucura desse jovem futuro cientista político que precisa colocar comida dentro de casa e tem três bocas famintas para alimentar. (estou pensando seriamente em trocar a comida dos gatos por umas tiras de salmão, pra ver se economizo no mês.)

Pois bem, sem mais delongas, sem mais firulas, vamos ao que interessa, ou sobre o que não interessa, mas que é legal ler só pra dar aquela força pro amigo aspirante a escritor, não é? 🙂

Dia desses, dando uma olhada no 9GAG , coisa que eu já não fazia há eras glaciais, vi uma coisa que me chamou a atenção. Uma das fotos postadas dizia assim (tradução livre): “Por que em vez de ensinar as crianças a não praticarem o bullying, não as ensinamos a se defenderem? Estamos criando uma sociedade de vítimas”. Certo, apesar de a frase não ser um primor em termos teóricos, dá pra dizer que não é lá um desastre e abre brecha para um debate bacana, sobre a forma como lidamos com o bullying em nossa sociedade atual. Muita gente pensa dessa forma, comprovado pelo alarmante número de pessoas que curtiram a publicação e estavam compartilhando pelos feices da vida, essa frase, como se fosse um exemplo de sabedoria, digna de… Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu. Se tem muita gente curtindo é porque tem muita gente que concorda com essa ideia de “cada um por si” ou  “salve-se quem puder”. Isso reflete um pensamento antigo, em que cabe à vítima saber se proteger, enquanto não é responsabilidade do agressor a agressão infligida.

Quando eu era pequeno eu ouvia muito da minha mãe uma frase que me amedrontava antes de sair de casa para meus afazeres estudantis: “se você apanhar na escola, apanha em casa quando chegar”. PORRA, a gente já ia passar pela merda de tomar uma porrada na escola e quando chegasse ainda ter que apanhar mais? Quando eu saía eu não sabia se tinha mais medo do cascudo no colégio ou das bifa que eu ia tomar em casa depois. A sorte é que nunca apanhei na escola.

Só em casa, porque eu era um anjo. (quero dizer que amo a minha mãe e sei que ela mudou, né dona Lízia?)

O fato é que ela não era a única. Aposto que a mãe de vocês fazia a mesma coisa e, se não dava a porrada de verdade, pelo menos ameaçava. E isso é muito triste, se a gente parar para pensar. Sempre ficou nas costas das vítimas a responsabilidade pela própria integridade física. Eu sei que nossas mães e pais devem ter falado isso na melhor das intenções – de um jeito PÉSSIMO, havemos de concordar – mas o que ninguém nunca pareceu parar para pensar é que eram os outros alunos que não deveriam me bater, ou em qualquer outro estudante, num colégio para crianças de 9 anos de idade. E naquela época o termo bullying, da maneira como o conhecemos hoje, não era empregado ainda, levando os casos de agressão e humilhação no ambiente escolar a serem tratados como “coisa de criança”, “molecagem”, “brincadeira” e outros tantos termos que buscavam sempre diminuir a gravidade da situação. E sempre foi assim, na história da humanidade.

O Brasil, assim como todos os países do mundo, sofre com a terrível violência que é o estupro. Além da situação humilhante, violenta, desrespeitosa e criminosa que sofrem, mulheres ainda são obrigadas a ouvir aquele discursinho safado de que “elas estavam provocando” ou “que não souberam se cuidar”. Tirando as nuances da nossa sociedade machista que por milênios tem sido conivente com a violência do homem sobre mulher, sob a justificativa da superioridade natural e/ou divina, essa ideia de que a culpa é do agredido é lugar-comum em umas cabeças menos “iluminadas”, por assim dizer. É a lei do mais forte que dá embasamento para esses pensamentos individualistas e egoístas.

Temos que nos perguntar sobre o que queremos da educação que damos às nossas crianças. Se precisamos ensinar nossos filhos a se defenderem dos seus próprios colegas, em vez de ensinar a todos a não cometer agressões, é porque estamos falhando miseravelmente na formação de cidadãos conscientes e respeitosos. Se a filosofia da auto-defesa prevalecer sobre a filosofia da não-agressão é porque estamos ignorando os próprios erros, erros esses que estão surgindo na base da formação infantil e afetando o futuro de adultos inseguros e violentos. O caminho deve ser o inverso: um que busque a paz, não a defesa própria diante da (evitável) agressão.

É óbvio que não obterá-se um sucesso total, pois precisamos reinventar nosso modo de educar e de repassar cidadania e isso levará algum tempo e, naturalmente, algumas falhas surgirão. Mas qualquer sucesso é válido, diante do fracasso que tem sido a educação e a prevenção de bullying ao redor do globo. Infelizmente ainda é enorme a quantidade de tutores, mães e pais que acham lindo quando a criança chama uma outra de “veadinho”, “gorda”, “magricela” e todos os outros insultos que rolam no submundo do pátio da escola, nas quebradas do recreio. Isso sem falar na porrada, não podemos esquecer.

Não quero ditar aqui como cada um deve criar seu filho, longe de mim. Mas acredito que seja uma boa refletir sobre a nossa posição diante de um problema sério e que, por acontecer no sacrossanto mundo infantil, muitas vezes passa despercebido ou com sua relevância atenuada. Não se trata aqui de criar um mundo de vítimas; trata-se, antes de mais nada, de evitar que este se torne um mundo de agressores.

P.S: O frio não faz bullying com os solteiros. Já perguntei.

Tadinho do Quasímodo! 😥

A sindrome da auto destruicao

Adoro assitir seriados. Comédia, drama, aventura, fantasia são só algumas das opções pra quem gosta de boas histórias. Para meu azar, todas as minhas séries não estão exibindo novos episódios, então não tem nada para assistir. Acontece que tem uma que eu não tinha visto toda: Mad Men. Sendo bem suscinto, essa série é sobre um monte de publicitários que tomam excelentes decisões de campanha, mas fazem péssimas escolhas na vida. Se passa nos anos 60 e é um drama inquestionavelmente apaixonante. Mad Men é real e te faz sentir parte da história, tamanha veracidade. E para quando eu me perguntava: “afinal, sobre o que é Mad Men?”, hoje eu tive a resposta: é sobre fazer escolhas. Don Draper e sua enorme insistência em fazer sua vida ser zoadíssima (para não dizer fu****) representam uma população inteira de pessoas que são incapazes de tomar uma decisão boa e com frutos positivos. Sempre escolhem as piores decisões, só porque parecem mais “fáceis”.

Nada é de ferro. Ninguém é de ferro. É muito difícil manter o equilíbrio em certos momentos. É normal deslizar aqui e ali, faz parte do processo de aprendizado. Falhar faz parte do “crescer” e estamos todos sujeitos  a isso. Mas não é para a frequência normal de falhas que eu quero chamar a atenção. É para as altas frequências de deslizes e erros que alguém comete, ao longo de sua vida.

Algumas pessoas parecem ter um dom para sempre tomarem a decisão errada. Não importa o quanto se aconselhe, o quanto se oriente, sempre acabam escolhendo o caminho mais fácil, mas que nem sempre é o melhor e, em alguns casos, podem ter consequências dolorosas para que escolheu mal. Essas pessoas podem ser burras, podem ser indecisas, podem ser sonhadoras ou podem ser más. É preciso atentar para quem deliberadamente toma as piores decisões, absolutamente consciente das consequências, com intenções ruins mesmo. Esses quase sempre nunca se arrependem, mesmo quando não termina muito bem para o sujeito. Tem os que cometem erros por inconsequência, por vontades momentâneas, por aventuras. No momento em que a bomba explode nas suas mãos, de repente, você não sabe o que fazer e age por impulso, muitas das vezes sem refletir sobre os resultados dessa escolha. Nesses casos, acho que pode haver sim, um arrependimento sincero, uma vontade honesta de tentar corrigir essas falhas, de resolver o problema e ser perdoado.

E não é pouca gente com esse primoroso dom de ferrar a própria existência. Por mais que as pesquisas avancem na área da “self-sabotage”, ainda não se sabe o porquê de alguns seres humanos insistirem em fazer merda atrás de merda, causando uma torrente de desgraça na própria vida. Muitos (alguns até com a melhor das intenções)  acabam, voluntária ou involuntariamente, tomando sempre a decisão mais imbecil e com mais de 99,3% de chance de dar errado. De onde vem essa propensão a fazer besteira, e quais suas motivações? Esse é um mistério que a ciência está longe de desvendar.

Infelizmente, nem todos estão cientes da gravidade do problema, e acabam pensando coisas horríveis dos portadores dessa terrível síndrome. Acham que são burros, que não querem nada com a vida, que vieram pra cá a passeio, que são sacanas (alguns são mesmo) e tantas outras coisas negativas sobre essas pessoas. O preconceito é enorme e tais indivíduos enfrentam uma dificuldade terrível para se integrar à sociedade. Há julgamento demasiado e nem sempre justo, boa parte das vezes. Perdem-se amigos, namorados e namoradas, respeito, admiração, perde-se a própria auto-estima. Temos a péssima mania de nos colocarmos acima dos nossos problemas, esquecendo-nos de que somos infalíveis. E quando falhamos, a decepção é impiedosa e nos faz sofrer.

Todo mundo conhece um ou vários (se for seu caso, sinto imensamente) portadores da síndrome da auto-destruição – especialitas também a chamam de síndrome da auto-sabotagem – e muitas das vezes perdem a paciência e se magoam com eles. Alguns querem realmente se redimir e fazer certo novamente. Outros não ligam.

No entanto, essas pessoas podem ser ajudadas, não pense que não. Com um pouco de compreensão, de amor, de carinho e de paciência, todos podem aprender a fazer as escolhas certas. É muito importante entender que pedir perdão é um processo difícil, e alguns de nós acabam sempre piorando a situação e dificultando nosso perdão. É também importante saber perdoar, e perdoar de verdade, sem guardar mágoas ou ressentimentos, mesmo que isso seja doloroso e problemático. Todos merecem uma chance. Todos podem tentar mais uma vez.

Mesmo que requeira um pouco mais de trabalho, quando há amor e uma vontade geral de recomeçar e fazer as pazes, pode ser feito.

Eu acredito nisso. Sou um indulgente convicto. Tudo pode ser quebrado, mas isso não significa que precisa ser jogado fora. Sempre há a chance de ser consertado, se houver esforço.

Porque eu sei que e amor

Não sou bom com declarações de amor. Aliás, acho que todo mundo que racionaliza demais acaba sendo um pateta emocional.

Eu sou um pateta emocional, por excelência.

Dia desses vi um vídeo no YouTube de uma declaração linda. O YouTube é aquele depósito da internet em que a gente pode achar muita coisa boa quando perde um pouquinho mais de tempo garimpando o que assistir. Em meio a tanta porcaria digital, achei esse vídeo que me encantou. Era uma declaração de uma menina para seu namorado. Muito sincera e criativa. Mesmo a menina sendo namorada de outro, confesso que ela roubou meu coração também.

Como eu disse, não sou bom com declarações de amor. Mas então eu refleti que isso não define o que é amor, ou sua dimensão. Amor, amor mesmo, desses que fazem doer o peito de saudade, a gente não mede por declarações.

O dia-a-dia é o maior teste para a resistência de um relacionamento. Estar na linha de frente da luta diária não é fácil para ninguém, todos sabemos disso. Mas sabemos também que fica muito mais fácil quando dividimos o peso com alguém. Então, mais do que uma declaração, essa crônica é um agradecimento.

Mesmo que eu não saiba fazer vídeos bonitos e criativos, mesmo que eu às vezes seja tão áspero que acabe machucando, mesmo que meu ímpeto libertário assuste de vez em quando, ainda está aqui do meu lado. A prova do amor não se dá através de demonstrações megalomaníacas e exageradas. Nosso amor se traduz no quotidiano.

Sabe como eu sei que é amor? Porque quando eu como pipoca doce eu lembro de você. Porque eu prefiro mil vezes deixar de ir pra balada se for pra dormir ao seu lado. Quando você deita no meu peito eu sinto que, naquele instante, é meu dever proteger-te de tudo que possa te fazer mal, porque eu sei que você deposita em mim (em nós) todas as suas esperanças. Não é preciso um anel de diamantes escondido no sorvete para provar que o que eu sinto por você ultrapassa tudo que meu ser egoísta já desejou.

Talvez eu nunca te dê um ramalhete, mas já te levei ao Jardim Zoológico pra ver os bichinhos (tinha flor lá também). Talvez nossa história vire filme, igual aos vários que a gente vê junto, deitados na cama embaixo do cobertor. Nosso amor se traduz no gato endiabrado que nós adotamos, ou no pastel que queimou. Nosso amor é gostoso, igual às costelas ao molho barbecue que a gente adora comer. Nosso namoro é agressivo, irritante, tempestuoso. Mas isso é parte da perfeição que, olhem só, não é tão perfeita assim.

Nosso amor é feito das lágrimas que derramamos em crises sérias, que tentaram até o último suspiro destruir tudo que a gente tinha. Mas não destruiu. As risadas foram mais fortes, os sorrisos mais duradouros, a alegria mais presente. No fim, entre mortos e feridos, salvaram-se todos e cá estamos nós.

Obrigado por ser meu ombro amigo, o suporte das minhas vitórias, a inspiração das minhas inspirações. Eu poderia ser o mesmo, viver minha vida como o lobo solitário que vive na Fortaleza da Solidão, mas que de noite não tem ninguém para abraçar. Mas não sou. Felizmente, achei alguém para dividir as madrugadas frias que insistem em fazer bullying com os solteiros. Mas não com a gente, porque a gente tem cobertores quentes, e corações mais quentes ainda, que não deixam o outro sentir frio.

Isso meus caros, é amor. O clichê mais antigo da humanidade.

Sem flores, sem placas de outdoor, sem carro de som cafona. Sem exageros, sem mania de grandeza. O amor é mais simples do que a gente pensa, e eu descobri isso da melhor forma.

Te amo, Mojin.

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Os 20 centavos mais caros do Brasil

Chega de discussão sobre a razão do protesto ser por causa de um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus. Se você ainda acredita nisso, é porque é ingênuo demais para compreender a dimensão do problema.

Podiam ser dez centavos, cinco centavos. Podia ser apenas um. O motivo de estarmos indo às ruas, lutando, protestando, correndo o risco da opressão, vai muito além do aumento, aparentemente irrisório, na passagem do transporte público. Muito além da simbólica quantia, surge uma indignação acumulada após anos de um silêncio incômodo. Um silêncio que foi habilmente mantido por vários artifícios, várias ações que, por incrível que pareçam, lograram êxito em manter a população quieta. Por trás de alguns vinténs (como diria Arnaldo Jabor) existe uma insatisfação com o completo descaso que vivenciamos diariamente, Brasil afora. O aumento da passagem em São Paulo abriu um leque de problemas que o país inteiro enfrenta, enquanto o governo, tanto na escala federal quanto na estadual, finge não ver que existem.

O povo Brasileiro é um dos que mais paga impostos no mundo. Brasil figura entre as dez maiores economias do planeta, mas mantém uma infra-estrutura de país pobre e sem recursos. Hospitais capengas, sistema educacional sofrível, transporte público de péssima qualidade, portos e aeroportos deficitários são alguns exemplos do retorno que o povo tem, em troca das altíssimas taxas que o Estado recolhe todos os dias. Damos dinheiro ao Estado quando fazemos compras, quando usamos o celular, quando importamos produtos, quando compramos um carro, quando financiamos um imóvel e até quando recebemos nossos salários. Trabalhamos alguns meses do ano só para que o poder público recolha sua “parte”, oriunda do nosso suor. A conta ultrapassa trilhões de reais e só o que vemos é um aviltante descuido dos serviços básicos que, em teoria, deveriam ser supridos pelo dinheiro que pagamos ao Leviatã. Como você vê, são trilhões de reais mais, “apenas”, vinte centavos.

A revolta vê ainda horizontes além do que uma simples restituição material dos bens públicos. Busca-se também uma postura ética por parte dos representantes eleitos democraticamente para os cargos de poder. Escândalos de corrupção, desvio de verbas, mal uso da máquina pública e o abuso de privilégios concedidos aos políticos são coisas comuns nos noticiários brasileiros e mesmo assim ninguém parece tomar uma providência. Executivo e Legislativo, principais poderes manchados pela imoralidade, cruzam os braços e assistem confortavelmente ao roubo de milhões de brasileiros, ao passo que existem pessoas morrendo de fome e na fila do sistema de saúde precário. O poder Judiciário vê sua autonomia ameaçada por manobras inconstitucionais de iniciativa dos deputados que querem limitar o poder de investigação do Ministério Público. Tudo isso é uma clara tentativa de perpetuar a tradicional impunidade que assola a credibilidade do poder público.

Outra questão revoltante é a questão das Copas e dos mega-eventos que se realizarão no Brasil, esse ano e nos anos futuros. O dinheiro gasto na construção de estádios e arenas para jogos foi exorbitante e ultrapassou todas as previsões de orçamento, fazendo com que governos federal e estadual remanejassem recursos de outras áreas (como saúde e educação) para cobrir a finalização das obras. Estádios monumentais que ficarão para sempre como grandes elefantes brancos sem uso e sem retorno para o povo das cidades. Não queremos a Copa porque existem mazelas em nosso país que foram simplesmente ignoradas, em nome de um evento que não enxerga nada além de lucro. A soberania do país foi solapada por um órgão internacional que impõe suas regras arbitrárias e não está aberta ao diálogo.

Infelizmente, a maior parte das manifestações é composta pela classe média intelectualizada, insatisfeita e indignada com tamanhos abusos cometidos por anos a fio, resolveu ir às ruas protestar por uma administração justa, que faça valer seus impostos, que possa usufruir de serviços básicos que atendam à grande maioria e que sejam de boa qualidade. Também é muito maior o número de jovens e estudantes participantes desses protestos, o que não deslegitima-o de forma alguma, embora parte da imprensa queira fazer isso. O ato é pelo Brasil e todas as classes, média, baixa, alta deveriam unir-se em busca de um bem maior.

A repressão policial é presente e brutal, um contraste alarmante com o Estado democrático de direitos que o Brasil se propõe a ser. A violência da polícia se justifica por conta de isolados atos de vandalismo, que não representam a maioria dos manifestantes. De qualquer forma, embora eu repudie os vândalos, esses pequenos casos de depredação e de danos ao patrimônio público foram fundamentais para que o resto do Brasil (e até mesmo o mundo) virasse os olhares para o que estava ocorrendo em SP.

Tudo isso é para dizer que: SIM, ESTOU MANIFESTANDO E PROTESTANDO PELO BOM USO DO DINHEIRO PÚBLICO E PELA ÉTICA NA ADMINISTRAÇÃO DO MEU PAÍS. Assim como eu, milhares ao redor do país estão se reunindo no intuito de promover atos pacíficos a fim de mudar a realidade em que vivemos atualmente. É seu dever, tanto quanto meu, o de lutar por uma nação mais próspera e mais justa.

Só vamos vencer quando todos saímos do conforto de nossos sofás e da frente dos nossos computadores e formos para as ruas, que é onde se faz a mudança. Se o gigante acordou, cabe a nós a missão de o mantermos acordado e vencer essa luta que só começou.

Avante, Brasil.

I still haven’t found what I’m looking for

Tem horas em que eu gosto de ser cafona.

Sabem aquele video do Pedro Bial, o que ele fala do Filtro Solar e de mais alguns conselhos bregas e clichezentos para você (tentar) ser feliz? Aquilo, por exemplo, é o tipo de coisa cafona e repetitiva que eu, você e o Inri Cristo estamos cansados de saber, mas é sempre bom ouvir de novo, em um momento difícil, ou quando você precisa justificar a falta de rumo que sua vida está tomando. Essa, inclusive, é a minha parte favorita no vídeo inteiro. Bial fala que não podemos nos desesperar por não sabermos o que queremos da vida aos 23 e que as pessoas mais interessantes que ele conheceu não sabiam o que queriam da vida aos quarenta.  Pois é. Esse ponto – tirando o do filtro solar – é o que mais me preocupa, em termos práticos.

Recentemente completei indesejáveis 21 anos. Indesejáveis porque eu odeio envelhecer. A idade vai chegando e com ela alguns questionamentos, como: o que vai ser da minha vida, agora que atingi a maioridade absoluta? Dia desses, enquanto voltava do trabalho, o shuffle do meu iPod começou a tocar “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, do U2, uma canção que eu adoro desde que tinha uns quinze anos de idade.

Realmente gosto dessa música. Acho que a aprecio justamente porque sempre me tive na conta de um eterno inconformado. Minha natureza nunca aceitou as coisas do jeito que são, sem antes questionar as razões de aquilo ser daquela maneira. Não gosto e nunca gostei de me imaginar como um peão do destino que não pode mudar sua realidade e, por conta disso, tornei-me um contestador chato de tudo que rege a minha vida. Ok, não. Contestador não é bem a palavra. Estaria mais para um inquieto, pendendo ao insatisfeito. Minha vida é ótima, realmente não há muito do que reclamar. Todavia, às vezes me parece insuficiente. Vocês não têm essa impressão? A de que estamos sempre e sempre buscando algo que nunca parece estar mais próximo?

A música me faz lembrar que estou incansavelmente buscando um sentido que me faça significar mais do que só “mais um que andou pela Terra”. Um sentido transcendental, que ultrapassa a ordinariedade da vida cotidiana, que vá além do pão nosso de cada dia. Eu, assim como o Bono, ainda não achei o que estou procurando, e a triste perspectiva desse incoformismo é justamente a incerteza. Pior do que não ter achado o que você está procurando, é não saber O QUÊ você está procurando, além do fato de saber que você está buscando alguma coisa. E aí incorremos em outro problema porque, além de não termos achado, ainda precisamos descobrir o que é para podermos ter, pelo menos, uma pista de onde começar a procurar. Complicado isso.

Não sei se me arriscaria a dizer que essa é a tal busca pela felicidade a que Thomas Jefferson e Will Smith se referem. Será que a caça, em si, é mais importante do que o objeto caçado? E as aqueles que conformaram-se e aceitaram a vida assim como esta lhes impôs, será que tais pessoas livraram-se das preocupações e da vontade de ser mais do que uma mera existência? Pode ser que sim. Pode ser que muitos tenham abdicado da angústia de procurar um sentido para a vida além daquele que o destino lhes ofereceu. E talvez eles sejam plenamente felizes exatamente por não almejar mais do que foi dado. É difícil dizer.

Não quero me alongar muito nisso, até porque esse assunto me parece bem chato até agora. Terminei essa reflexão sem concluir nada de muito revelador ou reconfortante. O fato é que a busca por algo que supere as expectivas da simples existência, pelo menos a minha, ainda está em curso e eu não tenho ideia de quando vai acabar. Pode ser que termine comigo encontrando exatamente o que busco a vida inteira (e que ainda estou pra saber do que se trata) ou pode ser que termine comigo aos quarenta jogando tudo pro alto e desistindo de achar o que quer que seja (sera que o Bial me acharia interessante?).

No fim das contas, é uma questão de escolha e a decisão invariavelmente acaba caindo nas nossas mãos. Pode-se escolher entre perseguir o sentido da existência ou aceitar nossas vidas sem esperar nada demais dela. E no fim, se você prestar um pouquinho de atenção, quem sabe perceba que achou tudo aquilo pelo qual estava procurando e a música do U2 não passe de uma bela canção. Tadinho do Bono.

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Os numeros de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 2.800 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 5 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo

Hoje e um novo dia, de um novo tempo que comecou…

Como todo mundo sabe (ou pelo menos, todo mundo que me conhecesse sabe), eu não assisto televisão. Poderia listar uma série de razões socio-políticas e ideológicas que não me permitem ver televisão, mas vou dar somente uma, mais simples, porém não menos verdadeira, do porquê eu não vejo televisão: eu não possuo um aparelho televisor. Por esse singelo motivo, fico eu impedido de assistir ao Programa do Ratinho, Domingão do Faustão, Superpop, etc (o que é uma lástima, vocês hão de convir).

Claro que só pelo fato de não haver um televisor nessa Fortaleza da Solidão significa que eu jamais em minha vida assista TV. Vez ou outra na casa da minha tia eu acabo sentando e vendo qualquer besteira que esteja passando no momento. Por vontade do acaso, fui brindado com a música de fim de ano da Globo e me vi imerso naquela sensação de letargia que nos acomete quando paramos pra perceber que o ano chegou ao fim. Em menos de 24 horas ele se acabará e nós entraremos em mais um ciclo de 365 dias, com as promessas de este ser um “Ano Novo”.

Pergunto-me então se é, de fato, um novo ano. Porque se você fizer uma análise profunda da situação, ele não é novo, noooovo. É na verdade, a mesma coisa de sempre, só que com um algarismo diferente. Seu emprego é o mesmo, sua vida também. Tem sempre sido assim, desde que o Papa Gregório XIII instituiu o calendário no resto da civilização ocidental cristã. A marcação do tempo é puramente abstrata e não significa um começo ou recomeço como os cartões de fim de ano querem nos fazer acreditar. Pode até ser, se assim você desejar. Mas se você não mover a bunda da cadeira para fazer algo que preste do seu “ano novo” ele vai ser exatamente igual ao que passou e deixará de ser novo pra ser só mais um ano.

Não quero falar de mudanças aqui novamente. Se eu fizer isso mais uma vez é capaz de ser chamado de especial de fim de ano do Roberto Carlos e eu não estou a fim de tantas emoções. Também não tornarei esse texto longo demais porque ninguém vai passar a virada lendo blog, façam-me o favor. Só quero lembrar que tudo de novo que o ano poderá nos trazer vai depender inteiramente de nós e de nossas atitudes. Podemos renovar nossas vidas simplesmente renovando nosso modo de pensar e agir, a maneira de tratar o próximo, o modo com que nos relacionamos com as pessoas ao nosso redor.

Drummond disse certa feita que quem tinha tido a ideia de cortar o tempo em anos, foi genial, porque estaria dando a chance de renovar a esperança, de reacender a crença num ano melhor. E quer saber? Foi realmente genial. Nos deu a chance de repensar nossa realidade e lutar para, quem sabe, ter uma vida melhor. A esperança é o alimento da luta diária, e a ideia de termos mais 365 oportunidades a nossa frente é bastante reconfortante, mesmo que isso, no fundo , não signifique nada.

Então aproveite, comece a sua dieta, entre na academia, comece um curso de mandarim,  descubra um novo amor, dedique-se ao seu trabalho, dedique-se à sua família, erre, acerte, experimente novos sabores, conheça novos lugares, faça novos amigos, ame quem mereça ser amado, perdoe quem mereça ser perdoado, peça perdão se achar que merece. Ria e chore. Beije, transe, faça uma loucura. Não viva cada dia como se o mundo fosse acabar, porque vimos que ele não acabará tão cedo (beijo pros Maias). Você tem doze meses para fazer tudo que sempre quis ou deixar mais um ano passar em branco no livro da sua vida.

E, acima de qualquer coisa, seja feliz! Porque ano que vem começa tudo outra vez…

Feliz 2013, meus queridos! Abraço forte desse nerd que deseja tudo de melhor para vocês!

;-D

“Tin Tin”

A parte chata de se trocar de pelos

Pêlos. Pêlos por toda parte. No apartamento inteiro. Desde que resolvi criar um gato, ainda estou me acostumando a caminhar pela Fortaleza da Solidão e de vez em quando dar de cara com uma nuvem de pêlos cinzas pairando no ar. Às vezes procuro por um vortex que fique cuspindo pêlos sem parar.

Bichento está passando pela primeira troca de pêlos habitual dos gatos. A troca é parecida com a muda de pele das cobras, a diferença é que, felizmente, pele de cobra não cai na sua comida e nem gruda na roupa. Paciência. Bichento está mudando e, considerando que esta ainda é a primeira, vai mudar várias vezes até o dia em que ele subir no telhado.

Sinto-me seguro em afirmar que, assim como meu gato, todos passamos por mudanças ao longo da vida; e a parte chata é que a grande maioria dessas está além do alcance de nossos desejos. Algumas podem até depender de nós, mas todo o resto vai depender do nosso bom e velho amigo, o acaso.

Você pode perguntar para qualquer uma das pessoas presentes neste vagão de metrô em que me encontro e garanto que 90% delas dirá que não gostam de mudanças. Porque, por excelência, mudar é um troço chato demais. Trocar de apartamento, trocar de carro, arrumar um novo emprego, terminar um casamento de 20 anos, trocar de roupa. Tudo é terrivelmente assustador porque nos obriga a abrir mão daquilo com que nos acostumamos e a abraçar algo novo, com que nunca lidamos antes. O desconhecido sempre será fonte de medo até que entendamos a situação. Mudar nos força a procurar compreender e a administrar um novo cenário e isso exige um esforço que, por preguiça ou despreparo, não queremos fazer.

E tudo começa lá, no seu primeiro minuto de vida, quando o ar, sem piedade, abre caminho através dos seus frágeis pulmões e então você sente uma dor lancinante e um frio cortante, já que aquele babaca de branco arrancou-o da placenta quentinha da mamãe. Que sacanagem, não é? Depende de como você irá encarar. Seria fácil se tivéssemos consciência do que está rolando na hora em que nascemos. Mas não é o caso, portanto ainda vai te custar uma boa trinca de anos até entender essa loucura toda que é a vida, o Universo e tudo mais. E sempre será mais ou menos desse jeito: vão te arrancar do quentinho pra te jogar no frio para então, quando você se reacostumar com a nova temperatura, ser lançado novamente em uma outra realidade. Podemos encarar a metáfora da barriga da mãe como a zona de conforto da qual ninguém quer sair. É – e para sempre será – mais fácil manter o status quo das nossas vidas do que buscar um paradigma diferente.

O ponto crucial – e particularmente complicado – dessa discussão é definir a mudança como algo bom ou ruim. Isso só você poderá dizer, a partir da forma com que lidas com todas essas transformações. Acredito (e podem sentir-se totalmente à vontade para discordar) que as situações estejam ao sabor do acaso, mas nossa essência não. O que você vai tirar de toda a nova realidade está intimamente ligado a quem você é e à forma com que reage às metamorfoses que ocorrem ininterruptamente. Isso é crescer. A vida não lhe deve explicações e tampouco irá facilitar as coisas. É repentino e nós não temos tempo de replicar. Triste, no entanto, necessário.

Necessário porque faz parte do processo de aprendizado e todas essas mudanças e trocas de peles/pêlos vão contribuir para o ser humano que queremos ser/somos. E por fim, depois de várias mudanças que vão lhe tirar sono através dos anos, após centenas de novos empregos, novos interesses, novos amores, novos carros e novas casas, nunca nos manteremos na velha zona de conforto, a velha placenta quentinha que nos abrigou durante nove meses. Vivemos em movimento e em constante transformação e assim será pelo resto de nossas vidas. Nem boa, nem ruim, mas sim, necessária.

E agora, pelo bem do tema tratado, proponho que mudemos de assunto.

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Sem cera

Sei que ninguém gosta muito de ouvir conselhos. E geralmente quem gosta, só gosta pelo prazer de ouvir mesmo, porque seguir que é bom, pouca gente faz. Mas se quiser um, seria esse: nunca peça a minha opinião. E quando eu digo nunca, estou sendo bastante sério. E por que eu aconselharia isso? Pelo simples fato de que se algum dia você pedir minha opinião, é exatamente ela que você terá.

Não tenho muitos anos de vida, mas do alto das minhas gloriosas 20 primaveras, pude notar que seres humanos odeiam ouvir a verdade. Somos criaturas de ego, movidas por elogios e floreios, tão auto-centradas que a verdade soa como ofensiva, se dita sem muita maquiagem.

Nos acostumamos com o politicamente correto e com a política da boa vizinhança, nos tornamos viciados nessa dupla que hoje é parte da cultura mundial. Tudo precisa ser pensado e repensado mil vezes antes de ser dito. Afinal, uma vírgula mal colocada e você pode terminar um namoro, perder um emprego, iniciar uma guerra civil, botar um cd do Calypso pra tocar e daí pra pior. Trágico. A verdade é insultante e qualquer coisa dita sem a máscara do politicamente correto pode te colocar contra a parede. Acredito que temos tanto medo de verdades inconvenientes e desagradáveis que preferimos viver na eterna ignorância ou, pior, numa eterna ilusão de que está sempre tudo bem. O fato é que…

… nem sempre está tudo bem. Talvez você precise ouvir algumas verdades bem desagradáveis para mudar alguma coisa em você que esteja incomodando as pessoas ao seu redor. Precisamos parar de achar que a verdade é ofensiva, porque não é. Verdade é verdade, não é arma de injúria. Um fato é e acabou. Ele não deixa de existir só porque você não gosta dele ou porque, de alguma maneira, a existência de tal te ofende. Enchemos a boca para dizer que apreciamos a sinceridade, mas quando alguém é absolutamente sincero e franco, colocamos a mão na mesma boca para fazer uma expressão de choque e perplexidade, injuriados porque aquela pessoa deveria ter mais “tato” na hora de falar as coisas. Tanto o é que os “super-sinceros” são constantemente taxados de grosseiros, abusados, desrespeitosos, petulantes, etc.

Dia desses disse para uma pessoa que não gostava dela. Assim, sem dor na consciência. Fui interpelado pela própria e respondi que não. Porque essa era a verdade e não havia maneira “polida” de dizer isso sem que soasse um pouco chocante. Mas e daí? A verdade precisa ser dita e, no que depender de mim, ela será proferida sem pena do interlocutor. Fui chamado de mau e de estúpido por ter falado a verdade e fiquei pensando se as pessoas realmente não preferem uma sociedade onde todos sejamos falsos e insinceros, tudo pelo bem da “delicadeza”. Não é grosseria, não é maldade, é simplesmente a verdade sobre o que eu penso. Não podemos temer a verdade, porque, querendo ou não ela irá fazer-se presente, por mais que tentemos maquiá-la ou enfeitá-la para parecer menos cruel. Não nego a crueldade de certos fatos e nem concordo com grande maioria deles. Mas quem sou eu para julgar a suposta maldade de uma verdade? A minha função limita-se a transmití-la e somente a isso.

Vou dizer o que me parece, tal como me parece: crescemos com essa ideia de que o mundo nos deve uma explicação ou um tratamento menos bruto. Mas não, ele não deve. Somos iguais e todos temos virtudes e vícios e, provavelmente, haverá pessoas que sempre saberão reconhecer suas qualidades e haverá as que vão enxergar todos os defeitos – e eventualmente apontá-los. Cabe a nós colher as críticas e produzir algo de positivo a partir disso.

Claro que não digo que devemos sair falando tudo que pensamos aos sete ventos. Isso é até perigoso, de certo modo. Todavia, uma vez que arguido sobre determinado ponto, proponho que sejas o mais claro e franco possível.

O mundo sofre com uma falta de honestidade e um vácuo de sinceridade (vide Congresso Nacional). Precisamos derrubar as barreiras da maquiagem e falar a verdade, mesmo que ela doa. É isso que falta para diminuirmos a hipocrisia e assumirmos os nossos monstros internos e, quem sabe, dar o primeira passo para um planeta mais correto e transparente. Um mundo “sine cera”.