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Os egoismos de um coracao vazio

Primeiro vou começar dizendo o quanto eu detesto esse hábito ridículo que por milênios predomina no imaginário humano, o de representar o coração como o símbolo do amor e jogar sobre o pobre órgão toda a responsabilidade das desilusões e das decepções amorosas. Quando sofremos é o coração que tá partido, quando nos apaixonamos é o coração que pula de alegria, quando estamos sozinhos é o coração que dói. Aos fazermos essas afirmações de cunho irrealista, cometemos uma grave injustiça com o grande responsável por toda essa gama de sentimentos que nos inunda, quando o assunto é o famigerado “amor”. É o seu cérebro, e não o seu coração, que proporciona toda a felicidade, ou toda a tristeza que lhe cabem no momento em que você está amando. O nosso amigo cheio de miolos nunca é lembrado quando se trata de afeto. O coração, muito indevidamente, roubou o lugar do cérebro.

Mas bem, para efeitos poéticos, o cérebro não é a melhor opção, seja pela tradição do uso do coração, seja pela estética pouco atraente que nosso órgão máximo apresenta. Então, para não sair da linha que os românticos há muito estabeleceram, vou me utilizar da metáfora do coração e ser feliz. Ou não. Porque num post que tem as palavras “egoísmo” e “vazio” no título, não podem indicar um texto exatamente feliz. Mas não espere ler uma saraivada de melodramas e frases de efeito sentimentaloides. O que escrevo aqui é uma abstração simples e direta de como me sinto nesse instante. Não que eu saiba muito bem, mas tentarei fazer um esforço de causa no sentido de dar vazão aos meus “sentimentos” (é nessa hora que vocês riem e perguntam: “mas você tem sentimentos?”). Porque eu nunca, NUNCA, sei o que realmente está se passando aqui dentro.

Meu coração vazio é egoísta. Vazio, porque desde que a última pessoa fez questão de esvaziá-lo, não apareceu ninguém que conseguisse colocar alguma coisa dentro dele. Está sem estofo, sem… como eu vou dizer? Meu coração está alheio às tentativas externas e internas (mais internas do que qualquer outra coisa) de fazê-lo bater tão forte quanto ele conseguir. Não está vazio porque eu estou farto de amar, ou porque me tornei uma pessoa dura e fria. Não, nada disso. Não consigo sustentar esse personagem do ser humano frio e distante dos sentimentos que muitos se orgulham em exibir. Sou feito de carne e sangue, e sangro, como qualquer um, se porventura vier a me machucar. E não tenho medo e/ou vergonha de mostrar o quanto sangro.

É egoísta, porque por mais que eu tenha consciência da minha atual inabilidade para me apaixonar por alguém (e estou tentando mais do que tudo), ele é incapaz de liberar as pessoas que eu tenho plena consciência de que nunca vou gostar na mesma intensidade com que já declararam gostar de mim. Eu sei que não irei retribuir esse sentimento, mas também não quero que elas se desafaçam dele para correr atrás de alguém cujo tal seja recíproco. Quero essas pessoas atadas ao seu sentimento por mim, quero-as incapazes de se desvencilhar da minha imagem, da minha presença, da minha influência. Quero que estejam sempre presos ao poder que exerço nelas, só porque isso me agrada. Só porque isso me faz sentir bem. Só porque o meu ego enorme e cruel precisa da admiração e do estupor que sentem quando eu estou por perto.

Me pergunto o quanto de sanidade tem nisso. Me pergunto também se sou o único que sente-se dessa maneira. Tenho quase certeza de que não sou só eu. Que no fundo, todos nós precisamos desse alimento para nossos egos doentios. Talvez seja isso o que exprime o ser humano como eterno insatisfeito, sempre almejando aquilo que ele não pode ter e constantemente desprezando o que já possui.

O fato é que a solidão não é uma companhia agradável, na maioria das vezes. Todos desejamos encontrar alguém que mexa nos nossos cabelos antes de dormir ou que conte uma piada quando nosso chinchila morre em menos de 24h depois que você comprou. No frigir dos ovos, é o nosso cérebro que se encarrega de nos fazer sofrer quando tudo que a gente quer é sentir o coração acelerar de maneira incontrolável de novo. E não se engane, nobre colega, se pensa que seu coração não faz nada. Pode ser até inofensivo sozinho, mas quando se junta com o seu cérebro, sinto lhe informar que é game over para você.

Sobre Filipe

Futuro Cientista Político, Rei dos Nerds, Feliz.

5 Respostas para “Os egoismos de um coracao vazio

  1. Fernanda ⋅

    Eu as vezes brigo comigo mesma com essa história do egoísmo, mas é um pouco incontrolável. Foge do meu controle pensar assim, querer as pessoas ligadas a mim e etc.Você não é o único no mundo. Se eu fosse comentar mesmo ia acabar saindo outro texto rs

  2. Pingback: Sturm und Drang

  3. Anônimo ⋅

    Pode ter certeza de que não é só você que se sente assim. Todos nós gostamos de nos sentir desejados, mesmo quando não retribuímos, gostamos que gostem de nós e ODIAMOS quando as pessoas partem pra outra.

  4. Somebody ⋅

    Pode ter certeza que você não é o único. Todos gostamos de ter pessoas que gostem de nós, mesmo que nós não correspondamos, e todos odiamos quando essas pessoas “partem pra outra”. É aquela velha história do não te quero nem te largo.

  5. Anônimo ⋅

    Não acho que se tornar uma pessoa “fria” depois de uma decepção seja tipo, dependendo da “queda” meio que te faz parar de acreditar nas pessoas. Só uma opinião (:

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